Thata - 16 - Brasil
"   Você combinou de jantar com a namorada, está em pleno tratamento dentário, tem planos pra semana que vem, precisa autenticar um documento em cartório, colocar gasolina no carro e no meio da tarde morre. Como assim? E os e-mails que você ainda não abriu, o livro que ficou pela metade, o telefonema que você prometeu dar à tardinha para um cliente? Não sei de onde tiraram esta idéia: morrer. A troco? Você passou mais de 10 anos da sua vida dentro de um colégio estudando fórmulas químicas que não serviriam pra nada, mas se manteve lá, fez as provas, foi em frente. Praticou muita educação física, quase perdeu o fôlego, mas não desistiu. Passou madrugadas sem dormir para estudar pro vestibular mesmo sem ter certeza do que gostaria de fazer da vida, cheio de dúvidas quanto à profissão escolhida, mas era hora de decidir, então decidiu, e mais uma vez foi em frente. De uma hora pra outra, tudo isso termina numa colisão na freeway, numa artéria entupida, num disparo feito por um delinqüente que gostou do seu tênis. Qual é? Morrer é um cliche. Obriga você a sair no melhor da festa sem se despedir de ninguém, sem ter dançado com a garota mais linda, sem ter tido tempo de ouvir outra vez sua música preferida. Você deixou em casa suas camisas penduradas nos cabides, sua toalha úmida no varal, e penduradas também algumas contas. Os outros vão ser obrigados a arrumar suas tralhas, a mexer nas suas gavetas, a apagar as pistas que você deixou durante uma vida inteira. Logo você, que sempre dizia: das minhas coisas cuido eu. Que pegadinha macabra: você sai sem tomar café e talvez não almoce, caminha por uma rua e talvez não chegue na próxima esquina, começa a falar e talvez não conclua o que pretende dizer. Não faz exames médicos, fuma dois maços por dia, bebe de tudo, curte costelas gordas e mulheres magras e morre num sábado de manhã. Se faz check-up regulares e não tem vícios, morre do mesmo jeito. Isso é para ser levado a sério? Tendo mais de cem anos de idade, vá lá, o sono eterno pode ser bem-vindo. Já não há mesmo muito a fazer, o corpo não acompanha a mente, e a mente também já rateia, sem falar que há quase nada guardado nas gavetas. Ok, hora de descansar em paz. Mas antes de viver tudo, antes de viver até a rapa? Não se faz. Morrer cedo é uma transgressão, desfaz a ordem natural das coisas. Morrer é um exagero. E, como se sabe, o exagero é a matéria-prima das piadas. Só que esta não tem graça.   "
Pedro Bial, vale a pena ler. (via inverbos)
"   Eu sou o teu plano B, talvez o C, o Z, quem sabe. “Tanto faz.” Sou meio que o fundo da panela, tua ultima opção. Quando ninguém mais conseguir, tu vem, me procura, me liga. “Tanto faz.” E a otária aqui te escuta, diz que vai ficar tudo bem, mas, nem vai. Não é egoísmo. Você se entala com todos, e acaba ficando engasgado, depois, lá estou eu, dando um tapinha nas suas costas. Pedindo pra voltar, para recomeçarmos, pedindo por mais umas horas, das horas que te restam. Algum tempo livre, quem sabe. E você aceita, duas horas depois, preciso de você, mas, não podemos inverter as posições não é? Meu dever é estar contigo quando todos te deixarem, e como recompensa, você me deixa. É aquele velho ditado, você pode fazer 99%, mas, se não fizer os 100, então não fez porra nenhuma. E cansa, já é ruim ter que lidar com os teus problemas, dramas, e suas toneladas emocionais, aí depois vem as minhas toneladas, minhas tristezas. E eu acabo me lotando, inchando, nunca transbordo. Fico na mesma, carregando você nas costas, e tropeçando nas migalhas que você me deixa.   "
Orquestrando. (via inverbos)
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Eu realmente não consigo idealizar alguém apaixonado por mim. Eu não consigo imaginar alguém pensando em mim antes de dormir, ou contando para os seus amigos sobre mim com um sorriso bobo. Eu não consigo imaginar ninguém nas nuvens porque eu disse um “oi” ou qualquer coisa assim. Não consigo imaginar alguém sorrindo para a tela do computador quando a gente está conversando. Sei lá, só não consigo.
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